Caso L:
Em 2006, fui convidada a dar aula para uma turma de educação de jovens e adultos. Quando a secretaria de educação me passou que eu teria uma aluna adulta com dificuldades de aprendizado, não escondo que tive uma certa preocupação, pois já havia trabalhado com crianças com problemas de aprendizado, mas confesso que o fato de ser uma pessoa adulta me deixou apreensiva.
Luciane chegou em seu primeiro dia de aula muito contente, acompanhada por sua mãe, sentou-se logo na frente, com seus materiais, colocando-os todos na mesa, como fosse usá-los todos naquele mesmo dia, assim como os alunos de pré-escola fazem. Ela tinha 32 anos e era mais velha que eu, mas sua personalidade emitia emoções e atitudes de uma criança de seis anos. Fiquei muito preocupada com minha primeira impressão, pois tinha naquela turma uma realidade bastante heterogênea, pois tinha alunos idosos com oitenta, setenta anos, alunos adultos dos seus trinta, quarenta e cinquenta e alunos jovens dos vinte, trinta anos e aquela aluna com aparência adulta, mas com temperamento de uma criança.
Com o passar das aulas percebi que a diferença de idades, de personalidades e de conhecimento (a turma era multiserial -1°, 2°,3°,4° e 5°anos) era muito grande, mas que o convívio em turma era muito bom, todos se ajudavam, era uma forte aceitação, inclusive com Luciane, que realmente tinha muita dificuldade em aprender. Ao avaliá-la percebi que sofria de dislexia, copiava, mas não conseguia ler, possuía uma inteligência muito grande, sabia falar sobre muitas coisas, tudo que ouvia sabia relatar, comentar e colocar sua opinião, o fato que não conseguia alfabetizá-la, pois isso ia além de minha atuação como professora, ela necessitava de recursos especiais. Encaminhei-a para a secretaria de educação para que tivesse um apoio além do seu convívio com a escola, ela teve esse acompanhamento que melhorou bastante seu rendimento. Ao falar com seu médico fiquei sabendo que sua inteligência era muito boa, porém essa dificuldade em ser alfabetizada era algo, que dificilmente seria vencida, mas não me tomei como vencida, tentei alfabetizá-la de diversas maneiras, inclusão digital, às vezes levava-a para minha casa em finais de semana, para umas aulas extras, mas o seu rendimento ainda era insuficiente. Eu estava cada vez mais chateada, pois o ano estava acabando e não tinha conseguido alfabetizá-la.
No final do ano, fiquei muito desapontada, pois não consegui alfabetizar Luciane, ela ainda estava apenas, pré alfabetizada, reconhecia letras, sílabas, mas não construía palavras, ou conseguia ler. Conversei com sua mãe tentando desculpar-me, pelo fato dela não aprovar e naquele dia tive eu um grande aprendizado, a mãe de Luciane disse que estava muito feliz e ficaria grata pelo resto da vida a mim, pelo fato de ter ajudado Luciane, ela nunca tinha estudado por um ano inteiro, nunca havia progredido tanto, todas as escolas que havia frequentado, nunca a apoiaram, por isso nunca havia frequentado a escola, apenas a APAE, Luciane sentia-se uma pessoa incapaz, por isso sentido-se excluída socialmente. Sua mãe relatou que Luciane sempre se colocava como "eu sou burra e nunca vou aprender", mas que aquele ano fez com que acreditasse que também era possível aprender, ela não se nomeava mais como "burra", apenas mostrava aos outros o que havia aprendido, mostrando assim que possuía também uma capacidade de aprender como todo ser humano, com suas limitações é claro, mas tinha condições.
Sai da escola, já que estava muito atarefada e então tive que deixar o EJA, com muito sofrimento, pois fiz muitos amigos lá, mas não poderia largar um concurso, então tive que escolher em deixar meu contrato do EJA, para dar andamento à faculdade, que estava merecendo maior tempo de minha parte. Ainda hoje tenho contato com Luciane, que está cada dia mais compremetida com a escola, na última vez que eu falei com a diretora da escola, fiquei sabendo, que ela estava fazendo oficinas na Escola Aberta e que fazia informática.
Caso C:
Cássio já era um menino da escola quando comecei a trabalhar lá, tinha 11 anos. Estava com um pré diagnóstico de autismo. Frequentou o primeiro ano e foi promovido para o segundo ano. Era um menino bastante agitado, às vezes agressivo. Falava muito pouco, raramente, mas sabia falar. Não interagia com os colegas, apenas com sua professora (a turma tinha uma professora que atendia ele e outra que conduzia a turma). Às vezes tornava-se tão agressivo que era necessário chamar sua mãe para acalmá-lo. Tirava roupa, jogava-se no chão, entre outras formas de conseguir o que queria. Comia geralmente o mesmo alimento que trazia de casa (granola). Raramente realizava as atividades dos colegas, apenas aceitando manusear massa de modelar ou jogos, não aceitava lápis ou qualquer material para escrever. Outras vezes ficava parado no mesmo lugar por muito tempo, só tendo reação no caso de alguém incentivá-lo. A família de Cássio não aceitava seu diagnóstico e não o levava a médicos para realmente saber seu problema. Quando a escola cobrou uma posição médica, um diagnóstico que comprovasse seu problema, sua família o tirou da escola.
Mesmo Cássio não sendo meu aluno, ficava angustiada com sua situação, de sua família não aceitar fazer um tratamento paralelo, a mãe acreditava que dia ele seria normal. Os alunos de sua turma o aceitavam muito bem, aceitando o fato de ser um aluno especial, ajudavam a conduzí-lo, tentavam interagir, mas dificilmente Cássio interagia com eles. Para os alunos, acredito que o fato de terem um aluno especial, conviverem com ele e o aceitarem foi uma grande conquista, pena que Cassio não correspondeu na mesma medida. Ainda hoje, vejo os alunos comentarem sobre ele, mesmo ele não estando na escola, ele certamente marcou a vida destes colegas, que gostavam dele, mesmo ele sendo de um jeito especial.
Caso G:
Gabriela frequentava a escola em que eu trabalho, estando na turma do pré. Tinha sete anos, seu diagnóstico médico era Microencefalia. Posuía uma estrutura corporal e óssea deformada, possuindo membros superiores e inferiores tortos. Era uma menina bastante agitada e demorou bastante a adaptar-se à escola, a sua rotina e ao convívio dos colegas. Não aceitava emprestar brinquedos, tinha bastante dificuldade motora, tendo com facilidade quedas ao locomover-se, muitas vezes machucando-se. Sua linguagem era bastante difícil de entender, trocava letras e pronúncias. Os colegas aceitavam bem sua presença, mas como era muito possessiva com brinquedos, gerava muitos conflitos no grupo e sua agressividade atrapalhava um pouco seu relacionamento com os coleguinhas, que demonstravam um pouco de medo dela. A família de Gabriela foi aos poucos vendo que ela não estava interagindo muito bem à escola, os colegas não interagiam com ela e esta não estava conseguido acompanhar as atividades que os coleguinhas realizavam. Como uma boa parte das famílias de alunos com necessidades especiais, acreditam que seus filhos consiguirão rapidamente acompanhar os colegas que não tem limitações, estas famílias ao não verem um progresso rápido acabam culpando a escola, os professores, como incapazes de solucionar o problema de seus filhos. Assim foi com a família de Gabriela, que acabou tirando-a da escola e deixando-a apenas frequentando a APAE. Gabriela hoje, é acompanhada por médicos e freqüenta a APAE.
Caso M e P:
Marcelo e Patrícia éram irmãos e frequentavam uma escola rural e multiseral. O diagnóstico de ambos era retardo, causado por problemas genéticos, devido a parentesco de primeiro grau dos pais. Quando ambos entraram na escola eram muito retraídos, falavam muito pouco e esse pouco ainda era falado em dialeto alemão. Com o tempo foram se sentindo mais confortáveis na escola, interagindo com os colegas e aprendendo a falar o português. Marcelo era um pouco agressivo, gostava de maltratar animais, inclusive matando-os. Quando percebeu-se um certo prazer por sacrificar animais, começou uma certa preocupação. Ele era acompanhado pelo núcleo de apoio aos alunos com necessidade especiais da cidade em que trabalhava, eles foram encaminhados através do conselho tutelar do município, ao perceber esse fato dele matar animais demonstrando prazer começou-se uma possível suspeita dele ter sofrido abuso sexual, que foi acompanhado pelos profissionais que o acompanhavam e que também trabalhavam com sua família. A família de Marcelo e Patrícia era bastante desprovida de renda e de conhecimento. Marcelo e Patrícia eram agredidos com frequência e muito por seus pais, tanto a higiene e alimentação precárias. Quanto a parte cognitiva, eles conseguiam aprender, mas com um pouco mais de tempo que os demais colegas. Marcelo tinha 10 anos, mas demonstrava mentalidade de 6, enquanto Patrícia com 8, demonstrava de 5. Eles com muito acompanhamento e carinho conseguiram alfabetizrem-se até o nível pré-silábico. Conseguiam respeitar limites, possuiam uma letra bastante legível e eram bem caprichosos com o caderno. Marcelo repetiu o segundo ano por três vezes, enquanto Patrícia por duas vezes. No final do ano passado, ao sentar-me com os profissionais do núcleo de apoio, pudemos verificar as grandes conquistas obtidas com o trabalho com os dois irmãos, que ao entrarem na escola eram praticamente uns "bichinhos do mato", que não interagiam ou falavam com os colegas, que não reconheciam nenhuma palavra, não sabiam utilizar nenhum recurso, lápis, borracha, caderno e hoje eram crianças caprichosas e tinham uma letra impecável, ainda não estavam totalmente alfabetizado, mas haviam evoluído muito, ao compararmos com tantas limitações que possuíam.
Caso E:
E era um menino do segundo ano e repetente. Era colega de P e M em uma escola rural e multiserial. Seu diagnóstico era de déficit de atenção. Ele não conseguia concentrar-se nas atividades, reclamava de barulho, era só algum colega falar que ele se perdia e não sabia mais o que estava fazendo e pensando. Ele próprio via sua dificuldade, ficava irritado, pois não conseguia acompanhar os colegas, deixando-o muito frustrado. Às vezes ele batia em sua cabeça, dizendo: "entra, entra", querendo que as idéias entrassem. Naquele ano seus pais fizeram um acordo com E, que se ele passasse de ano ganharia uma bicicleta, empolgando muito ele. Percebia-se um empenho por parte dele, mas era necessário mais que isso para ele conseguir se alfabetizar. E também era acompanhado pelo núcleo de apoio à crianças com dificuldade, seus pais eram bastante participativos, embora não entendessem e nem aceitassem sua dificuldade de aprendizado. Naquele ano E não consegui alfabetizar-se chegando apenas ao nível silábico, deixando seus pais e ele mesmo muito chateados. E, pelo mérito e pelo esforço demonstrado por sua parte, vendo-se que de fato havia progredido, mesmo que não o suficiente, foi promovido de série, para que o incentivasse a se superar. Este fato demonstra a importância de promover um aluno com dificuldades, para que não deixe frustrado e acomode-se. Tenho certeza que E nunca deixará de querer mais, ainda mais com o apoio dos pais.
Comments (3)
Maria del Carmen Cabrera Martins said
at 12:48 pm on Apr 7, 2009
Olá, Patricia, muito ricos os teus depoimentos. Por experiência costumo dizer, que a familia de nossos alunos PNEEs precissam ser atendidas tanto quanto eles, porque na sua mairoai como tu muito bem colaste, tem negação do problema, assim muitas vezes dificultando o desenvolvimento do seu filho. Por isto, acredito que as escolas, alem de ter atendimento especializado para estes alunos, deveriam ter uma equipe que atendesse esses pais, a familia, para que entendam que o o processo de aprendizagem dos seus filhos, muitas vezes é longo, é em "conta gotas", que sem o apoio dela ,a escola, a professora não fazem milagres.
Abraços
Maria del Carmen
liliana said
at 9:39 pm on Apr 22, 2009
Oi Patri
parabens..que relatos lindos..e ricos...algns desses casos continuas acompanhando?
poderias relatar mais sobre como é trabalhar numa turma multiserial? acho que isso enriqueceria muito para os colegas... eu tenho um respeito muito grande por profissionais que trabalham com essa diversidade e conseguem alfabetizar, trabalhar outras áreas...com alunos com diferentes graus de desenvolvimento e de conhecimento...considero que é uma grande experiência ...eu mesma não tenho essa experiência...mas adoraria conhecer mais
abraços
lili
Patricia Carine Ferreira said
at 9:22 pm on May 10, 2009
Oi profe!!! Bem atualmente estou em outras turmas e não estou acompanhando mais nenhum destes casos, apenas tenho contatos com o caso L, por se tratar de uma vizinha. Quanto trabalhar com turmas multi seriadas, posso dizer que é um aprendizado tanto para o professor quanto para os alunos. O único diferencial é o planejar que precisa ser mais direcionado ao aluno de acordo com seu desenvolvimento, o que para mim deveria ser sempre, não apenas em turmas multi-seriais. O legal é que não há uma preocupação em que os alunos andem junto conforme os conteúdos, não há cobranças, eles vão correspondendo de acordo com seu próprio desenvolvimento, uns mais rápido, outros mais lentos, cada um segue conforme suas limitações. Eu aprendi muito ao atender estas turmas, eu que sempre fui muito ansiosa, que achava que a turma tinha que render conforme o que estava planejando, aprendi a compreender meu aluno a ver seu desenvolvimento, suas limitações, suas conquistas uma a uma e isso faz uma diferença muito grande no ver seu aluno como único e não ver a turma como um todo. apredi a planejar para o aluno e não para os conteúdos que a escola cobrava, entrei em atritos, mas valeu a pena, tenho uma visão bem diferente hoje do que é educação e devo bastante a esta experiência! Abraço!
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